Programa Sahamalaza da AEECL
(Associação Europeia para o Estudo e Conservação dos Lémures)
Ilhas Radama: Conservação e estudo dos lémures criticamente ameaçados do noroeste de Madagáscar
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O lémur preto de olhos azuis (Eulemur macaco flavifrons) (Fig.1) é uma espécie de lémur criticamente ameaçada da península de Sahamalaza, no noroeste de Madagáscar. Estima-se que a sua população não excede uns poucos milhares. Trata-se de uma espécie de lémures das menos estudadas e que habita as florestas primárias e secundárias de uma área muito pequena de cerca de 2.700Km2 quadrados, delimitada a Sul pelo rio Andranomalaza, a Norte pelo rio Maevarano e a Oeste pelo rio Sandrakota.
A península de Sahamalaza no noroeste de Madagáscar é o melhor sítio para ver o criticamente ameaçado lémur preto de olhos azuis (Eulemur macaco flavifrons) e provavelmente o lémur rato gigante do norte (Mirza zaza). É também o único sítio onde se pode avistar o recentemente descrito lémur desportivo de Sahamalaza (Lepilemur sahamalazensis).
Para se chegar à floresta de Ankarafa em Sahamalaza faz-se uma viagem de barco de uma hora da vila de Analalava até à pequena aldeia de Marovato e depois um trajecto para o interior de duas horas. Arranjam-se barcos e guias locais em Analalava (contacte o escritório da AEECL ou o Hotel Talio). Está neste momento a constituir-se uma associação de guias locais. A Air Madagascar já não voa para Analalava, mas é possível voar para a capital regional Antsohihy e apanhar depois um taxi-jeep ou um ferry na época das chuvas. Recomenda-se o uso de um operador turístico baseado em Antananarivo ou Antsiranana. Também se pode chegar à península de Sahamalaza por piroga partindo de Maromandia, que está situada entre Antsohihy e Ambanja na Estrada Nacional 6.
A melhor altura para visitar Sahamalaza é entre Agosto e Outubro, pois estes são os meses mais frescos e mais secos. É preciso levar uma tenda e equipamento para acampar.
A península de Sahamalaza encontra-se numa zona de transição entre a floresta tropical húmida a Norte e a floresta seca de folha caduca a Sul. Conhecida como Sambirano Sul, esta área tem uma floresta semi-húmida com árvores que atingem 30 metros em solos alcalinos de base ferrosa, argilosa, basáltica ou arenosa. A precipitação média anual é da ordem dos 1600 milímetros. A época seca ocorre de Abril a Outubro e a época das chuvas de Novembro a Março. A vegetação em Sahamalaza inclui espécies tanto de Sambirano como das florestas ocidentais secas e de folha caduca. As florestas são separadas entre si por savanas arbustivas.
Sahamalaza é habitada não só pelos lémures pretos de olhos azuis como também pelo tímido lémur desportivo (Lepilemur sahamalazensis) que foi descoberto na floresta Ankarafa na península de Sahamalaza e descrito pela primeira vez em Fevereiro de 2006.
Aparentemente o lémur desportivo só se encontra nesta área. Não existem ainda estimativas do tamanho da população desta espécie, mas atendendo à dimensão do seu habitat pensa-se que também está criticamente ameaçado. As outras espécies de lémur existentes em Sahamalaza incluem o aye-aye (Daubentonia madagascariensis) (Fig.2), o lémur bamboo ocidental (Hapalemur occidentalis) e o recentemente descrito mirza zaza.
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As espécies de lémures que vivem em Sahamalaza estão ameaçadas pela caça e pela destruição da floresta. Em Madagáscar de uma forma geral as florestas são queimadas a um ritmo muito acelerado, tanto para praticar uma agricultura de terra-queimada (slash-and-burn) como para criar áreas de pastagem para o gado. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), na sua Lista Vermelha de Abril de 2005, colocou o lémur preto de olhos azuis entre as espécies criticamente ameaçadas (CR A2cd) atendendo a que a sua população se reduziu em 80% nos últimos 25 anos. O mesmo se deve provavelmente aplicar ao lémur desportivo de Sahamalaza, que no entanto nunca foi ainda analisado no âmbito da Lista Vermelha da IUCN.
A Associação Europeia para o Estudo e Conservação dos Lémures (AEECL) é um consórcio de 16 jardins zoológicos europeus e uma universidade que juntaram forças para desenvolver projectos de conservação e investigação dos lémures criticamente ameaçados de Madagáscar.
Desde o final dos anos oitenta, a AEECL implementou e financiou vários projectos de investigação, sobretudo de citogenética, taxonomia e distribuição dos géneros de lémur tais como os Hapalemur, os Lepilemur e os Propithecus. A região de Sahamalaza tem estado no centro dos interesses científicos e conservacionistas da AECCL desde 1988. Uma das prioridades da AECCL desde há alguns anos tem sido a criação de uma reserva para os lémures pretos de olhos azuis na península de Sahamalaza.
O trabalho da AEECL resultou na implementação de uma reserva da bioesfera UNESCO em Sahamalaza em Setembro de 2001. Em 26 de Janeiro de 2005 o governo malgaxe publicou um decreto que veio criar zonas chave que constituirão a futura Área Protegida de Sahamalaza-Ilhas Radama, num total de 260Km2 de florestas, corais e mangais que a seu tempo se transformarão num parque nacional. Tratou-se de um passo importante no sentido de obter um estatuto de conservação para a região face à lei malgaxe, mas não aumentou ainda de forma eficaz o nível de protecção para o último habitat dos lémures pretos de olhos azuis.
Para obter uma protecção eficaz deste habitat é necessário criar um corpo de guardas da natureza motivado e bem equipado, uma medida prevista para os próximos anos pela autoridade que supervisiona os parques nacionais em Magdagáscar, ANGAP. A futura Área Protegida de Sahamalaza-Ilhas Radama é um dos poucos parques em processo de criação que foi seleccionado para integrar o Programa Ambiental 3 (PE 3), um programa governamental de conservação da natureza. O banco mundial fez uma doação de cerca de 50 milhões de dólares para financiar este programa (a maior quantia alguma vez disponibilizada para este tipo de fins a um país, sem obrigação de devolução), e parte do dinheiro será usado em Sahamalaza.
No decorrer de 2004 os cientistas da AEECL e das Universidades de Antananarivo e Mahajanga criaram uma equipa de trabalho e um centro de investigação no terreno na floresta de Ankarafa, no coração da reserva da bioesfera UNESCO e futura Área Protegida Sahamalaza-Ilhas Radama. A floresta de Ankarafa alberga as maiores populações de lémures pretos de olhos azuis sobreviventes. Os três primeiros projectos de investigação a longo-prazo, nomeadamente sobre ecologia nutricional, socioecologia e estado de parasitas dos E. m. flavifrons, estão a ser desenvolvidos no âmbito do Programa Sahamalaza da AEECL. As outras espécies objecto de estudo ou/e censo em Sahamalaza nos últimos anos foram os Mirza zaza e os Lepilemur sahamalazaensis bem como aves.
Estudar o lémur preto de olhos azuis...
Estes estudos bem como o trabalho que se desenvolverá nos próximos anos visam criar conhecimento que contribuirá para a melhoria dos esforços de consevação in situ e ex situ do lémures pretos de olhos azuis e outras espécies de lémures em Sahamalaza.
O lémur preto de olhos azuis é uma espécie de lémur criticamente ameaçada do noroeste de Madagáscar. Só se encontra numa área de distribuição muito restrita na península de Sahamalaza e zonas adjacentes.
Os lémures pretos de olhos azuis são sexualmente dicromáticos, sendo as fêmeas castanho-beige e os machos completamente pretos. Provavelmente devido a estas diferenças na coloração da pelagem, os dois sexos foram considerados espécies distintas e assim foram descritos pela ciência ao longo do século dezanove: Gray baptizou as fêmeas de Lemur flavifrons em 1867 e em 1880 Sclater descreveu os machos como Lemur nigerrimus. Como ninguém sabia exactamente donde estes animais provinham e não foram avistados por nenhum cientista nos cem anos subsequentes, o lémur preto de olhos azuis foi considerado por alguns autores como um “mito interminável” até que em 1983 a espécie foi finalmente redescoberta por L. Koenders numa expedição financiada pelo Zoo de Mulhouse e a Universidade de Estrasburgo. Estudos genéticos posteriores confirmaram o estatuto subespecífico do Eulemur macao flavifrons.
Os lémures pretos de olhos azuis estão criticamente ameaçados devido à sua área de distribuição limitada, à fragmentação do seu habitat e à sua baixa população total, estimada em poucos milhares. Em 1984 e 1986 alguns indivíduos de uma sub-população não viável foram capturados e levados para a Europa para serem membros fundadores do EEP (European Endagered Species Programme) dos lémures pretos de olhos azuis. O EEP está directamente ligado ao programa de conservação e investigação in situ desenvolvido por cientistas europeus e malgaxes na península de Sahamalaza. Todos os zoos europeus com lémures pretos de olhos azuis contribuem para financiar este programa através da sua participação na Associação Europeia para o Estudo e Conservação dos Lémures (AEECL).
O Programa Sahamalaza da AEECL integra-se numa iniciativa mais vasta, o “Programa dos Lémures Criticamente Ameaçados”, co-financiado pela Conservation International, pela AEECL e outras ONGs e coordenado pela ONG Malgaxe Fanamby. Esta iniciativa visa estabelecer programas científicos de conservação das oito espécies de lémur mais ameaçadas, entre as quais se encontra o Eulemur macaco flavifrons.
Os lémures de Madagáscar são sobretudo ameaçados pela destruição e degradação dos seus habitats naturais em toda a ilha. As florestas estão a ser destruídas para dar lugar a campos de arroz ou pastagens, ou estão a ser abatidas de forma selectiva para aproveitamento de madeiras exóticas. O governo malgaxe está consciente da situação crítica em que encontram os ecossistemas do país e o presidente Marc Ravalomanana prometeu triplicar a rede nacional de áreas protegidas até 2010. Apesar do aumento do número e do tamanho das áreas protegidas ser um passo enorme na direcção correcta, não equivale em cada caso à protecção efectiva de uma espécie ameaçada. É por isso preciso estabelecer programas individuais de gestão e planos de acção para cada uma das espécies de lémur mais ameaçadas, assentes em cada caso no estudo da respectiva ecologia e comportamento bem do impacto nestes da degradação do habitat.
...e salvá-lo da extinção
O nosso conhecimento dos lémures pretos de olhos azuis continua a apresentar grandes falhas. Juntos, os zoos da AEECL procuram colmatar estas falhas, especialmente no que diz respeito à sua dinâmica social, à sua utilização do habitat, à sua ecologia nutricional e a questões veterinárias, por forma a desenvolver um programa de gestão e conservação integrado para esta espécie criticamente ameaçada. O projecto de investigação contribuirá para sensibilizar as populações locais e o público em geral para a importância do ecossitema florestal alvo e a longo prazo facilitará os esforços de conservação da espécie e respectivo habitat.
Para além destes esforços directos de investigação e conservação, a AEECL e os seus parceiros americanos da Wildlife Conservation Society (WCS), com o envolvimento dos representantes das comunidades locais e de várias instituições ambientalistas, implementaram em Dezembro de 2000 um programa comunitário de gestão dos recursos naturais (CBNRM-Community Based Natural Resource Management). Este programa identificou dois objectivos: manter e fortalecer os processos naturais e o estado dos ecossistemas terrestres e marinhos; e melhorar as técnicas de utilização dos recursos por forma a melhorar o nível de vida das populações locais. Foi proposto um plano e acção que tem estado a ser implementado.
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